PALAVRAS E CARTAS




Nunca consegui me relacionar bem com as palavras faladas. Sempre ficava atenta escutando as pessoas. Achava aquilo uma arte. Mas eu precisava falar. Era impossível ficar calada e eu gostava muito de falar. Entretanto, as palavras me traíam e eu acabava fazendo uma grande confusão. Eu sempre abria a boca na hora errada, com as pessoas erradas, no local errado e falava tudo errado. Muitas vezes eu tropeçava nas palavras e o tombo era inevitável, deixando cicatrizes. Então, eu ficava acabrunhada de tanta besteira que falava e me recolhia. Se eu tivesse que dar uma resposta ela certamente sairia ao avesso. Outras vezes eu caía de minhas próprias palavras e era uma queda atrás da outra. Passei a ficar cada dia mais calada. Aprendi a escutar e a conversar comigo mesma. Viajava e tagarelava com meus pensamentos. Mas nem tudo estava perdido, eis que me surgem, milagrosamente, duas saídas.  As palavras escritas e as cartas. Na minha infância meu pai comprava muitos livros e, antes mesmo de aprender a ler, eu ouvia muitas histórias lidas e até representadas por ele ou minha mãe. Aos 13 anos, no colégio, participei de um júri simulado e nosso réu era o ex-presidente Getúlio Vargas de quem eu nada sabia. Coube a mim a defesa. Recorri à biblioteca municipal e li tudo que me caiu às mãos. Conversava com meu pai que sempre fora admirador de suas ações junto aos brasileiros. “Minha filha foi ele quem criou a carteira de trabalho, foi ele quem instalou a Companhia Siderúrgica Nacional, a CSN, em Volta Redonda, foi ele quem criou as leis trabalhistas, ele era chamado de pai dos pobres”. Ele falava tudo isto se orgulhando daquele que para ele havia sido o melhor presidente do Brasil. Mas eu precisava saber muito mais. Eu precisava saber o que ele deixou de fazer  ou o que fizera de errado. Então, meu pai tivera uma grande e salvadora ideia.  Pediu que eu escrevesse uma carta a um amigo advogado que se sabia getulista ferrenho. Expliquei o meu trabalho e pedi ajuda. A resposta viera de imediato e os jurados absolveram meu cliente por unanimidade. Daí em diante passei a ter sempre uma carta nas mangas. Então, comecei a escrever cartas, muitas cartas. Cartas para minhas amigas, cartas para meus irmãos que já haviam saído de casa, cartas para artistas de televisão, cartas para quem te quero. E assim me reconciliei com as palavras, senão faladas agora escritas. Outras dessas cartas também fizeram histórias. Aos 17 anos, logo que saí de casa para morar em outra cidade, escrevi para minha mãe dizendo-lhe da dolorosa sensação de que eu jamais voltaria a viver com ela e minha família. A tristeza que senti diante daquela constatação era imensa. Dois dias depois de colocada tal missiva nos correios gastei o parco dinheiro que havia levado e voltei à minha cidade. Cheguei a minha casa antes daquela carta. Fazia-se necessário poupar minha mãe daquela dor tão avassaladora. Guardei a carta, intacta, e o tempo encarregou de perdê-la. Mas não perdi o interesse pelas cartas, elas constituíram uma maneira de eu comunicar com o mundo sem tropeçar e cair das palavras.  O gosto por elas espalhou-se e eu era convocada a escrever cartas de todo jeito, eram cartas de amor, cartas de desavenças e muitas cartas de saudades de filhos para as mães.

Passados alguns anos, já quase na reta final de meu longo curso, fui morar com uma colega que viria a ser minha grande amiga e afilhada de casamento. Era numa vila com todas as casinhas iguais, por onde não circulavam veículos. Havia ali uma tranquilidade aconchegante. O distanciamento afetivo dos meus familiares havia sido acomodado. Mau sinal. As cartas tornaram-se raras. Minhas irmãs haviam se casado e uma delas fora para São Paulo. Eu estava deveras sozinha. Então, comecei a escrever cartas para mim... Tornei-me destinatária e remetente de uma só vez. Fiquei amiga de mim.
E foi assim que, na solidão dos dias longos, eu esperava pelas minhas cartas.
Ainda hoje escrevo cartas...


Madrugada  de 18/04/2014




Num outro dia de plantão em urgência psiquiátrica  eis  que  nos é levado pela policia militar um sujeito  encontrado  sozinho numa praça pública do centro de  Belo Horizonte. Os policiais nos relataram que o “elemento” procurara o posto policial pedindo  socorro de modo desvairado , não conseguindo  dizer o que estava lhe acontecendo para deixá-lo  daquele jeito. Suspeitando que se tratava de mais um louco nas ruas da cidade , a PM o encaminhou até  o hospital público onde trabalho. Então chegou até nós um homem   de aproximadamente 50 anos , vestido com simplicidade,  muito falante  e extremamente inquieto . Falava , andava , levantava os braços, se irritava quando alguém tentava abordá-lo, repetia o que ninguém conseguia entender e se irritava ainda mais quando percebia que não se fazia entendido.  Depois de muito vai e vem , de muito  nervosismo , de braços estendidos para cima , ora no alto da cabeça , ora na cabeça ,  consegui entender sua historia: ele entrara num bar e pedira um copo d’água ,sendo  logo atendido .  Ele bebeu a água . A seguir passou-lhe pela cabeça que a tal mulher,  ao virar de costas para providenciar  seu pedido, teria envenenado a  água.  A partir de então ficou desesperado. Precisava  que um médico lhe dissesse se iria morrer ou não.  Repetia essa história com o  desespero da  proximidade da morte . Tentei  tranquilizá-lo; sem sucesso . Nada demovia dele o envenenamento e a expectativa da morte. -Vou telefonar para  meu irmão... e foi logo pegando seu celular e começou novamente seu relato  desorganizado de envenenamento e de  morte. Neste momento, percebendo que ele falava com alguém ao telefone, pedi seu celular, dada a importância de localizar um familiar.  Contra sua vontade e relutando em não me emprestá-lo,  finalmente me entrega o aparelho . -Desliga logo esse celular e me ajuda pelo amor de Deus ...era ele e seu desespero. Ao tentar desligar, acendo uma luzinha no tal do aparelho e ele, ainda mais nervoso e irritado, começou a esbravejar: -  agora ocê apaga ...vamos... apague , quem mandou mexer ...  E eu não conseguia desligar o foco de luz  e mexia daqui e dalí e o moço esbravejava e se irritava  até que eu lhe disse : -Toma  ai ...eu não sei desligar isto não!  Tião parou , me olhou e disse: _ você é médica e não  sabe desligar um celular ? -Não sei não... disse-lhe  eu Tião olhou para mim; parou subitamente;  sorriu  debochadamente  e aquietou-se. Então,  foi possível ajudá-lo.



ADORO LAVAR ROUPAS



Ainda agora estava eu pendurando roupas no varal da pequenina área de serviço do meu apto e lembrando o final da minha infância e início da adolescência.
“- Eu limpo a casa e encero todo sábado e lá vem vocês entrando e saindo com os pés sujos...”.
 Era minha irmã mais velha, Dora, muito senhora de si e de todos nós, os seis irmãos mais novos. Ainda posso sentir o cheiro da cera e da limpeza naqueles dias de sábado. A porta da sala dava para uma área de terra e era inevitável passar por ela para entrar em casa. Eu nem ousava pensar naquilo. Haveria um jeito de não sujar os pés senão eram muitos xingamentos. Como a minha irmã era brava!
Meu irmão, abaixo de Dora, tinha catorze anos e já trabalhava desde os dez. Agora ele limpava uma sapataria e, no final do ano, iria nos presentear com sapatos. O nome dele era Felício, homenagem ao nosso avô. Com seus primeiros e minguados vencimentos, ele comprou uma linda bicicleta alaranjada em várias prestações. Tudo isto pra dizer que aquela Monark deu muita confusão. Dora virava uma onça , quando ele e sua bicicleta adentravam pela casa nas tardes de sábado. Felício era muito obediente e tímido. Ainda vivia brincando com seus carrinhos, logicamente fechado no quarto dos meninos. Dizia que seria motorista quando crescesse. A seguir tinha Joãozinho, nome do meu pai. Ele “era de morte” como dizia minha mãe. Se alguém chorava durante as orações da noite, era ele a beliscar um, fazer careta para outro, e negava de pés juntos que não era ele. Um santo esse meu irmão. Lia era mais velha que eu apenas um ano. Tivera problemas nas pernas e ficara várias vezes internada num hospital, na capital, fazendo operações nos ossos para corrigir o defeito.  Acho que, por isto, era a queridinha dos meus pais. Era despachada, alegre e sempre tinha um querer. O trabalho dela era lavar o banheiro todos os dias. Nossa casa tinha um banheiro que, depois, virou mais um quarto. Meu pai era muito cuidadoso com os filhos e com a casa. Quando os dois mais novos cresceram, ele transformara, mais uma vez, o novo banheiro em mais um quarto. Fizera uma cozinha nova, grande e comprara um fogão a gás para minha mãe. Adoramos a novidade daquele fogão, mas sentíamos saudades do outro, a lenha, vermelhão e muito bem feito. Erámos sete irmãos. Sempre recebíamos visitas. Parentes do interior que dormiam em nossa casa e, à noite, ouvíamos os casos e as piadas. Aquilo era uma festa.
Bem, eu não lembro se a escolha para lavar as roupas era minha ou se escolheram por mim.  Acho que foi a mandona da Dora. No inicio era pesado e desanimador, mas eu ia criando modos de aperfeiçoamento e muita ciência naquele trabalho do dia a dia. Estudava pela manhã no colégio estadual. Da minha casa eu via o prédio grande, majestoso e num verde muito suave. Não havia ruas que ligassem nosso bairro ao colégio, então todos nós, tínhamos que dar uma volta enorme pelo centro da cidade até chegar lá.
Tenho muitas roupas para lavar, voltemos ao tanque. Esqueci-me de dizer que, quase sempre, faltava água nos canos debaixo da terra vermelha. Tinha a fontinha que ficava muito além do despenhadeiro do final da minha rua. Gostava de ir lá. Ficava vendo as lavadeiras “oficiais” nas pedras, esfregando, enxaguando e torcendo todas aquelas roupas. Como era bonito de se ver. Às vezes elas cantavam enquanto as mãos e os pés ficavam mergulhados n’água corrente e os sons se misturavam com aqueles do esfregar as roupas.  Meus pensamentos viajavam naquele som ritmado das lavadeiras. Poderia ficar ali, sentada numa pedra só para ouvir as mulheres naquele canto. Imaginava as roupas limpas em seus donos. De quem seria aquele vestido cor de rosa? Minha mãe avisava para não demorar; as trilhas eram fechadas e longas. Eu gostava mesmo era de ver a alegria de Dona Joana, minha vizinha. Ela lavava as roupas de seus filhos e de outras famílias. As filhas dela eram minhas amigas. O único filho homem, para alegria de Dona Joana, já era jogador de futebol na Venezuela e tinha o apelido de Pelé.
 Minha mãe pagava uma lavadeira para os lençóis, toalhas de mesa e de banho. Eu ficava com roupas de vestir. Não tínhamos muitas roupas, por isto elas deveriam ser lavadas diariamente. Primeiro eu tirava a sujeira grossa das roupas brancas com um tal sabão  vermelho e duro. Depois passava uma água para deixa-las sem as tais sujeiras. Nem sempre havia sabão em pó para colocá-las de molho. A bacia era de cobre e eu tinha força para leva-la até um local onde o sol deveria fazer sua parte. Tinha certeza que os raios solares ajudavam a clarear as roupas. O tanque deveria ficar desocupado para a limpeza da casa e da cozinha. Tudo pronto. Ainda não eram seis horas da manhã. Agora tomava meu café com pão e margarina, ou um pedaço de bolo feito por minha mãe. Lá íamos nós. Eu amava meu colégio. Participava das festas, das gincanas, do vôlei. Era muito estudiosa.
Voltava pra casa e para o almoço quentinho. Naquela hora o sol era muito forte na cabeça. Gostava de usar um lenço para me proteger e adorava a água molhando o meu corpo também.  Antes era minha mãe quem lavava todas as roupas. Ela usava um enorme chapéu de palha e um avental de material plástico amarrado à cintura. Meu pai sempre sorria quando a via vestida daquele jeito. E ela dizia que era o melhor serviço da casa.
Tá na hora de esfregar, enxaguar e torcer as roupas brancas. Então, vem outra ciência minha. Eu lavava as roupas coloridas nas águas que iam ficando depois da primeira etapa do meu distinto trabalho. Assim aproveitava água e sabão. As roupas brancas eu estendia nos compridos arames, ao sol. As de cor eu colocava debaixo das sombras dos pés de limão e de abacate que ficavam no terreno da vizinha. Era para não desbotá-las. Desta forma elas ficariam sempre novas. A cada dia eu aperfeiçoava também o estender as roupas no varal, para facilitar o terrível trabalho na hora de passa-las.
Acabado o trabalho, era hora do café. Minha mãe fritava angu que sobrava do almoço ou fazia angu doce com rapadura cujo sabor ainda tenho na boca. Quase nunca sobravam pães do café da manhã. Meu pai sempre comprava a conta dos filhos. Enquanto saboreava meu café eu olhava pela janela e via todas as roupas penduradas. Era lindo de se ver. Aproveitava as roupas mais bonitas, pegava carona no vento e viajava pra todo mundo. Ia até o Tejo e voltava nas caravelas com Cristóvão Colombo. Voava num Zepelin pelas montanhas de Minas. Ia até Ouro Preto para ver Tiradentes e sua Ana, ou para São João Del Rei ver Bárbara Heliodora,... Minhas viagens acabavam quando minha consciência avisava que tinham deveres para o dia seguinte. Lá ia eu estudar... Fazia tudo rápido porque eu gostava mesmo era dos romances. E eu lia sem parar. Entrava nos pensamentos de Ceci e Peri, de Simão Botelho e Teresa de Albuquerque, de Ana Terra, do Doidão, e por ai afora. Tentava entender o que se passava na cabeça de cada um deles. Chorava , sorria , sofria, perdia o sono.
- “Olha a roupa seca no varal. Já tá ficando de noite”.
Era minha mãe.

Caprichosamente eu pegava toda a roupa já seca, dobrava e deixava para a dona do passar. Voltava para meus livros e, cansada de tanto lavar roupas, dormia pensando que se eu não fosse lavadeira haveria de ser  mesmo era uma escritora.